
Sete Cores e Sete Segredos
Eu não sei a quantas anda o arco-íris. Esqueci de contar as moedas de ouro do Fim, e só tarde demais descobri que precisaria delas. Cada uma delas. E do duende! Me disseram que seria ele que contaria a história das cores. Na verdade eu só quis saber do Vermelho e do Anil, mesmo tendo o Amarelo sido tão simpático.
Fui embora e esqueci de dar tchau. Achei que voltaria logo, que o duende havia gostado dos caramelos e da tarde chuvosa, mas eu não voltei. Quem me levou ali não quis me mostrar como chegar, ou como voltar.
Bem que me disseram, que depois de encontrar uma vez o Fim, não se encontra outro. É só uma vez, e você nunca esquece. E depois quer mais, e espera ansioso pela próxima chuva e pelo próximo arco-íris.
Agora, naqueles dias que chamam de casamento de espanhol, é só surgir o Vermelho que a Nostalgia vem me visitar. Ela sim sabe como voltar, como ir, como vir. E sempre se lembra de deixar uma lágrima.
Só não deixo de pensar, que como em toda gota d'água, a da lágrima também carrega as sete cores, os sete segredos, o Fim, e aquele começo do beijo sem cor, que aos poucos foi se colorindo, e que no final ficou sem cor de novo.
Tão tarde até que arde
Eram brincadeiras do relógio. Se pudesse soar algo, além do tic tac contínuo na noite, seriam risadas. Sempre depois das onze. Se olhasse pro analógico, os ponteiros estariam formando um sorriso torto, de lado, apontando pra onde os olhos não enxergavam, mas onde a mente via. Lembrou do gato, e dos caminhos caducos; do Rei e da Lua; das estrelas com cheiro de mato; dos pássaros e da casa sozinha.
O sorriso só surgiu ao lembrar do gosto azedo e gelado, de que nunca se lembraria de um jeito só. A cada passeio de idéias, sabia que mais um detalhe escaparia. E sabia mais ainda que sorriria como Alice, quando lembrasse. O pior era saber que Alice volta pra casa no fim.
E o corpo amolecia, e a boca se enchia com gosto de céu. Marshmellow, jujuba e marrom glacê. O relógio brincava, enquanto os olhos quase fechavam. Deixou de sorrir.
Hora de dormir.
Canela e Sangue
Do pecado triplo surge o medo. O temor. O sentimento que a enlaçou nele.
Era fácil sentir o pulsar rápido do sangue nas veias. E ela percebia as pernas cederem ao tentar imaginar o tremor das mãos dele.
Não era pra acotecer. Peter jamais a perdoaria. Seria banida de seus próprios sonhos. Não poderia mais olhar pras estrelas esperando que viesse buscá-la. Ele não viria.
Não derramou se quer uma lágrima. Se derramasse, seriam sugadas pelo alívio repentino do tempo.
O cheiro picante enchia o corpo dela de esperanças, mas ele rosnava de raiva por dentro. Seus olhos não conseguiam cruzar os dela, e mesmo assim sentiam-se seguros juntos.
O gosto picante salvou parte de seus sonhos quando o sol levantou. Nunca gostara tanto de vermelho, como naquele dia.
Horas tornaram-se segundos, e ela podia explodir de alegria, se fosse possível. Pan não viria mais, mas ela ainda poderia ver o sorriso sincero e desajustado de seu outro menino. E foi o dia em que ela viu mais sentimento em um sorriso. Desejou que tudo pudesse dar errado do jeito certo, pra poder tê-lo um pouco mais.
E o fim só marcou outro começo. Início de canela, final de sangue. E muitos sorrisos.