
Terminal
Ela sentou num banco diante de uma lanchonete e puxou o celular do bolso. Eram 20:32. "Cheguei cedo demais" pensou. Mas isso talvez não fosse problema, já que haviam dezenas de pessoas passando por aquele banco, a quem ela podia observar. Uma mulher de casaco de lã cinza e botas altas passou correndo, e olhou para o lado, sentindo estar observada. Admirou a menina de cabelos estranhos e voltou o rosto para seu destino. Depois um homem velho rastejou até a lanchonete, e saiu segurando uma latinha de Coca Cola. Um menininho, de uns quatro anos, veio correndinho e apoiou-se nas pernas da menina, que sorriu. "Cadê sua mãe?" E logo uma moça muito bonita apareceu e sorriu ao ver a criança. "Ele anda tão abusado... Vamos Davi!", e levou o menino, que olhou para trás ao virar a lanchonete. "Davi..." suspirou ela.
O tempo parecia não passar, e como se estivesse em casa, ela deitou-se sobre o banco , com a cabeça suspensa para baixo. Os cabelos estranhos estendidos, e o terminal virou de ponta-cabeça. Ela viu um ônibus chegar, deslizando pelo teto, e seu coração disparou. Não mudou a posição, porém. Tirou o celular mais uma vez do bolso, e viu a hora mudar para 21:20, exatamente. "Não é ele...", e fechou os olhos.
As pessoas passavam e às vezes sorriam para a menina. Talvez pela cena engraçada que ela fornecia ao terminal rodoviário, ocupando um banco inteiro, e com a cabeça para baixo. Começou a cantorolar algo, baixinho, a fim de que apenas ela escutasse, e fechou os olhos.
- Pensa em mim, que eu tô pensando em você e me diz o que eu quero te dizer, vem pra cá, pra eu ver que juntos estamos e te falar mais uma vez que...
- ... te amo.
Ergueu-se num pulo, os cabelos desarrumaram-se pelo seu rosto. A voz que terminara a canção era conhecida, e acalmou o coração dela. Um menino alto e moreno estava em pé, ao lado de um dos cantos do banco, sorrindo serenamente. A menina olhava encantada para ele. Parecia um sonho, uma história, um relato dessas velhinhas que contam seus causos nas tardes chuvosas. Foi humanamente impossível segurar a lágrima perolada que correu por seu rosto. E o rapaz a viu brilhar quando ela encontrou o chão. E os dois ficaram apenas se contemplando por um tempo, sorrindo um para o outro, seus olhos pareciam ímãs fortes, que não se desgrudavam. Ela então se ergueu, e ele apenas observou. Caminhou vagamente até o menino, e postou seu corpo a menos de dois centímetros do dele. Ele tocou seu rosto com os dedos, desprendendo mais uma pérola dos olhos da menina. E então, como cena de final de filme, como num gesto planejado, eles se abraçaram forte, unindo seus peitos, seus corações. Ele a ergueu do chão, e os dois se sentiram do céu. Nada mais poderia separá-los.
- Por: Lau às 05h53 PM