
Ana Coreta
Sobriamente geminiana, entorpecidamente canceriana (ou cancerígena, quem sabe). Nascida em manhã de inverno, em cidade grande, tão pequena. Talvez por isso tenha se tornado admiradora do frio e amante da nação tricolor paulista.
Teimosamente fã, tipicamente desajuizada, desajuizadamente apegada.
Cada um conhece uma diferente, e é difícil que todas estejam juntas.
Não é razão, é pura emoção.
Alívio Vermelho
Encheu o copo com o alívio bordô. Caminhou segurando-o com força, temendo perder qualquer gole de um suspiro a mais. Sentou-se e acomodou-se na cadeira, colocando os pensamentos entre as mãos. Goles cálidos do quase-sangue imperceptivelmente juntavam-se ao sangue-sangue. Sorrateiramente, após copos forrados do vermelho, as bochechas acompanhavam o tom.
Então sua mente sorriu, a boca abriu, e ela desabafou com seus fantasmas. E o Merlot a consolou, oferecendo abrigo sempre que choverem lágrimas ardidas, e lembrou-a que logo ela não estaria sozinha.
Lavou o copo que exalava o perfume da segurança e colocou-o em seu leito novamente.
Como se nada tivesse acontecido.
Doença
- E desde quando você se sente assim?
- Alow, doutor, você tá me ouvindo?
- Estou perguntando desde quando você se sente assim.
- Desde sempre.
- Você nasceu com isso?
- Sim.
- Mas não disse que é por causa de alguém?
- Sim.
- Então como "desde sempre"?
- Doutor, o senhor nunca amou na sua vida.
* Testo antigo, situação antiga. Postando pra ter ele guardado em algum lugar.
A dor, amor
- E agora?
- Que agora?
- Como fica?
- Como fica o que?
- O hoje, o ontem, o amanhã.
- Tempo.
- É.
- Não existe mais tempo. Ou existe. Mas ele vai passar tão devagar, que quando isso tudo chegar a um final... vou me sentir tão velha, que talvez meu coração não suporte mais.
- Deixa de ser boba.
- Suportar de tanto amor.
- Dor?
- Não, amor.
- Amor?
- Amor. Incondicional. Até lá meu coração explode. Ele precisa vir buscar esse amor.
* Testo antigo, situação antiga. Postando pra ter ele guardado em algum lugar.
Fate
- Voltou?
- Não.
- Não vá fazer nenhuma bobagem.
- Vou só perder minha sanidade, jogar fora meu juízo e abrir os braços pro destino. Vou deixar que tudo aconteça como ele sempre quis, parar de tentar fazer tudo do meu jeito, permitir que ele me guie. Eu não quero mais tentar, não quero mais ser forte, eu não consigo mais.
- Sinto muito. Eu entendo.
- Não, não entende. Você não entende nada. Ninguém entende.
* Testo antigo, situação antiga. Postando pra ter ele guardado em algum lugar.
O Dia da Noite
Abriu os olhos e ergueu-os para o alto, quase que esquecendo, por um segundo, do calor vivo ao seu lado.
O céu tinha, sem dúvida, um poder enorme sobre seus olhos, sua mente, seu corpo. Deixou-se perder nos incontáveis pontinhos faiscantes do breu, como quem se entrega a um amante.
Se quer preocupou-se com o tempo. Na verdade, nem lembrou-se dele. Permitiu, que pelo menos por uma noite, o infinito a guiasse por onde quisesse.
Ao seu lado, o único motivo que a matinha sem medo de ser engolida pela Via Láctea; segurava sua mão e não deixava que se agarrasse nas caudas da estrelas cadentes.
No silêncio sem Lua, sentia-se o pulsar vermelho das mãos entrelaçadas, e o palpitar dos dois corações beiravam o Olodum.
Mas a Noite não dura pra sempre, e o Sol acordou guloso, devorando as estrelas, ofuscando os olhos dos viajantes.
E então, a Noite deitou-se e dormiu.